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Casimiro Freire

Casimiro Freire nasceu em Pedrógão Pequeno, na Beira Baixa, a 8 de Outubro de 1843. Filho de José Inácio Freire e de Josefa da Silva Freire. Era oriundo duma família humilde e em consequência na sua juventude emigrou para Lisboa. Começou por trabalhar como caixeiro (empregado comercial que tem a seu cargo a venda a retalho) e tornou-se o continuador do seu venerando patrão, João Jacinto Fernandes, tendo-se elevado pelos seus próprios merecimentos, a ponto de se tornar no representante da firma. Foi em Lisboa que se fixou, fez fortuna e se tornou um próspero comerciante e industrial.

Republicano desde 1862, estreou-se em 1873 como polemista de imprensa, escrevendo na Democracia, jornal dirigido por José Elias Garcia e fundado nesse mesmo ano.

Em 1876, com Oliveira Marreca, Sousa Brandão e outros, cooperou na fundação do primeiro centro republicano, onde teve o nº 17. Nesse mesmo ano tomou parte no banquete memorável do Palácio Quintela, onde se celebrou a queda Mac-Mahon em França.

Casou com Maria Madalena Battaglia, sogra de João de Deus e segundo casamento desta.

A 29 e 30 de Março de 1881 publicou no jornal O Século o artigo «A instrução do povo e a monarquia» insurgindo-se contra a incúria dos governos monárquicos no combate ao analfabetismo e propondo que fossem enviados aos mais recônditos lugares de Portugal missões de alfabetização de professores habilitados que ensinassem a ler e a escrever. Essa ideia deu origem à Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus, que fundou conjuntamente com João de Deus a 18 de Maio de 1882. Para tal, «(...) reuniram-se algumas dezenas de cidadãos e fundaram a Associação de Escolas Móveis, com o fim de ensinar a ler, escrever e contar pelo método de admirável rapidez, do Senhor Dr. João de Deus, os indivíduos que o solicitarem, até onde permitam os seus meios económicos, enviando nesse intuito às diversas povoações da nação portuguesa professores devidamente habilitados – não se envolvendo em assuntos políticos, nem quaisquer outros alheios ao seu fim.».

Foi mecenas, filantropo e um apóstolo devotado da instrução. Foi seguramente o primeiro propagandista em Portugal do método João de Deus e um dos seus maiores admiradores. Simpatizante dos ideais republicanos, dedicou-se à causa da educação, suportando financeiramente diversas iniciativas de alfabetização.

Cedeu a João de Deus, um primeiro andar dos armazéns onde trabalhava, no Largo do Terreiro do Trigo, para ser a sede da Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus.

Desde esse momento, em jornais e revistas, mais ou menos se ocupou de assuntos económicos e de instrução.

Em 1883 falou em comícios contra Salamacanda em Setúbal, Évora e Aveiro, ao lado de Sebastião Magalhães Lima, e da comissão paroquial republicana da freguesia de Santa Isabel, foi eleito membro efectivo do Directório do Partido Republicano Português.

Em 1884 foi eleito vereador por Lisboa, mas o apuramento na Câmara Municipal não lhe confirmou a votação.

Em 1887 fez parte da comissão que regulamentou a primeira lei dos cereais, propondo, então, o manifesto da produção do trigo, que só em 1916 foi exigido.

Em 1890, por ocasião do ultimato inglês, era Casimiro Freire director da Associação Comercial de Lisboa, que o despotismo franquista dissolveu.

Em 1893 relatou na Associação Comercial as memoráveis representações «Questão de cereais e impostos portugueses e a sua aplicação», verdadeiros libelos da monarquia, que fosse dissolvida em Fevereiro de 1894 aquela colectividade, bem como a Associação Industrial e dos Lojistas de Lisboa.

Dos artigos que tinha dispersos em jornais e revistas projectou ainda fazer dois livros: um sobre questões políticas e económicas; outros sobre instrução e método João de Deus.

Em 1896 morreu João de Deus e nessa altura Casimiro Freire assume um papel de relação familiar estreita com os filhos do poeta, tratando-os como seus netos.

Em 1897 publicou em folheto uma representação à Câmara dos Deputados, sob a epígrafe «A instrução do povo e o método João de Deus».

Em 1911 foi o mais votado da Junta Consultiva do Partido Republicano.

França Borges, no nº 175 do jornal Comércio e Indústria em 1904, referindo-se a Casimiro Freire escreveu: «Pedem-me que fale sobre o senhor Casimiro Freire. O que primeiro se me oferece dizer sobre esse prestante cidadão é garantir, com a maior segurança, que falar dele em público é molestá-lo a sério. Esse homem não quer nada para si. Quer tudo para os outros. Esse homem não só repele como detesta para ele tudo o que seja publicidade.».

Em 1906, no jornal Mundo França Borges de novo exaltava Casimiro Freire, «que chega aos 73 anos e mantém ainda hoje a mesma fé viva e ardente nos princípios republicanos.». O Dicionário Portugal, tomo 36, pág. 584, e vários jornais políticos e literários publicaram o seu retrato e traços biográficos, homenagens, a que, no entanto, sempre foi alheio.

Foi sócio honorário do Grémio Literário do Pará e da Sociedade Dantesca Italiana.

Por decreto de 5 de Junho de 1915, sendo Ministro da Instrução Pública Magalhães Lima, foi encarregado da catalogação e organização do Museu Bibliográfico, Pedagógico e Artístico João de Deus, serviço que concluiu a 30 de Junho de 1916.

A 31 de Dezembro de 1916 desligou-se do partido republicano, para, tal como escreveu numa carta: «morrer apenas republicano», pois estava desiludido do credo pelo qual tanto trabalhara.

Por decreto de 23 de Dezembro de 1916, publicado em 9 de Janeiro de 1917, foi encarregado da guarda e conservação do museu até à sua instalação definitiva junto ao Jardim-Escola João de Deus na Estrela, recebendo por esse serviço a gratificação mensal de 50$.

Morreu a 20 de Outubro de 1918, pelas 17 horas, na sua casa, na Rua das Gaivotas, nº 20C-1º, em Lisboa. No dia 22 de Outubro o seu corpo partiu da estação de comboios do Rossio num fourgon do comboio-correio da noite. Foi enterrado em Pedrógão Pequeno, terra que lhe foi berço. A acompanhar o cortejo foram muitos amigos íntimos, velhos companheiros de ideal, professores, corpos directivos e pessoal da secretaria da Associação de Escolas Móveis pelo Método de João de Deus. Também o acompanhou o seu irmão Izídro Freire, a sua irmã Maximina Freire, as suas afilhadas Ângela, Maria da Luz e Adelaide Heinz, a viúva de João de Deus e os seus filhos, Adelaide Zilhão e o seu esposo, a D. Maria Freire Costa e o José Gomes da Costa. Do carro funerário até ao fourgon organizaram-se três turnos, sob a direcção de João de Deus Ramos: o primeiro constituído pelos professores do Jardim-Escola João de Deus de Lisboa (Estrela); o segundo pelos senhores doutores Sousa Costa, José Agostinho Pereira Sousa, João de Barros, Alfredo Pereira, Sousa Fernandes, Francisco Baía, coronel Sousa Tavares e Gregório Fernandes, que representou o jornal A Manhã, o seu director e o pessoal da redacção; o terceiro pelos senhores Carlos Garcia, Augusto Baptista, José Perfeito, António Gonçalves, Abel Conceição, José do Espírito Santo (Visconde de São Bartolomeu de Messines), Carlos Faro e Eduardo Gaspar, que representou o senhor doutor Sebastião Magalhães Lima, director do Jornal O Século.