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João de Deus Ramos

João de Deus Ramos Júnior nasceu a 26 de Abril de 1878, na freguesia do Coração de Jesus, em Lisboa. Foi o terceiro dos quatro filhos de João de Deus e Guilhermina de Battaglia Ramos. Embora não fosse o mais velho, João de Deus distinguia-o dizendo : «O João com esta cabeça pequenina há de ir longe».

Aos seis anos iniciou os seus estudos num colégio interno Jesuíta em Campolide. De imediato se distinguiu como bom aluno e as suas capacidades foram aproveitadas pelo seu professor de instrução primária que aplicava nas aulas a educação mutualista. De véspera o professor preparava a matéria da aula com o seu aluno e no dia seguinte ele dava a aula inteiramente sozinho.
Entretanto, aos 14 anos, surgiu-lhe uma dúvida religiosa relacionada com a obrigatoriedade de comungar diariamente. Ele perguntou : «Se eu não estiver em estado de graça, comungo para obedecer ou cometo sacrilégio?». Consequentemente foi expulso.

No ano lectivo de 1885-1886 matriculou-se no curso de filosofia no Liceu Central de Lisboa.

Aos dezassete anos perdeu o pai e assume, na medida do possível, a chefia da família. Sabe que o pai depositou nele a esperança do seguidor da sua obra. Terminou o liceu e foi para a Universidade de Coimbra cursar Direito em 1897. Os estudantes receberam-no em glória e isentaram-no das praxes académicas, por ser filho de João de Deus, a quem eles tinham homenageado há pouco mais de dois anos.
A 3 de Outubro de 1898 foi à inspecção militar, mas foi recusado para servir por doze anos, passando assim à reserva até 3 de Outubro de 1910, ficando, porém, em tempo de guerra obrigado à defesa local até 26 de Abril de 1923.
Dedicou-se aos estudos e estreitou uma amizade fraternal com João de Barros, a quem confidenciou os seus projectos. Publicou um livro de poesias intitulado A Cruz d´amar em 1899. Começou a pensar em criar Jardins-Escolas e em esclarecer mais as pessoas acerca do método João de Deus. Por vezes, os que o rodeavam, não acreditavam que ele fosse capaz de vir a realizar tudo o que a sua mente projectava. Consideravam-no um idealista, um sonhador.
Deixou de usar o apelido Júnior e passou a ser conhecido por João de Deus Ramos.

Em 1902 concluiu os seus estudos e publicou Os altos princípios do método João de Deus. No ano sucessivo iniciou uma série de conferências pedagógicas e propaganda do Método de Leitura e Escolas Móveis por todo o país. Essa árdua tarefa ocupou-o vários anos.
Leccionou francês durante dois anos num liceu em Lisboa.

Entre 1905 e 1910 dirigiu a revista A instrução do povo. Em 1907 tornou-se o director do Boletim das Escolas Móveis pelo Método João de Deus.

Ao longo da sua vida escreveu diversos artigos e foi entrevistado para vários periódicos. Desses artigos de opinião destacaram-se os : A tradição jesuíta no ensino; Conde de Monsaraz; Influência das agitações políticas na evolução do ensino popular e A iniciação auditiva indispensável para a criação da música portuguesa.
Depois de ter desistido de escrever poesia, dedicou-se ao género da fábula. Algumas delas foram publicadas em revistas : O grilo e o canário; O carroceiro, o burro e o cão; O exemplo da cegonha; A fábula do homem.
Publicou a terceira edição anotada de Arte de escrita.

Em 1908 assumiu a Direcção da Associação que o seu pai tinha fundado e altera-lhe o nome para Associação de Escolas Móveis pelo Método João de Deus e Bibliotecas Ambulantes. Nesse mesmo ano empreendeu uma viagem pela Europa, sobretudo à França e à Suíça, cujo objectivo era o de ver Jardins de Infância a funcionar. Dessas visitas que fez teve contacto com diferentes pedagogos e métodos de ensino, entre os quais, Friedrich Wilhelm August Froëbel (1782-1852), Ovide Decrolly, Maria Montessori (1870-1951) e Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827).
Ao regressar teve a ideia de criar Jardins-Escolas, baseando-se nos métodos desses pedagogos, mas adaptando-os à realidade portuguesa. Por isso não se quis limitar a uma simples cópia do que se fazia no estrangeiro, mas teve vontade de fazer uma recolha do que ele considerava de melhor nesses métodos e por vezes alterando-lhes alguns aspectos. Para esse fim contactou com o arquitecto Raul Lino que em 1909 lhe apresentou o projecto para o primeiro Jardim-Escola João de Deus. Raul Lino tornou-se no seu colaborador ao longo da vida, assim como Leal da Câmara, pintando os frisos das diversas salas dos Jardins-Escolas. Como escreveu Joaquim Manso num jornal : «João de Deus Ramos pensou logo em Coimbra, a linda cidade que a sua juventude amara...». Contou também com o apoio do Orfeon Académico de Coimbra, dirigido por António Joyce, que angariou fundos através de inúmeros espectáculos que realizou no país.

Foi iniciado na Maçonaria, entrando para a loja Solidariedade (Lisboa, Grande Oriente Lusitano Unido), com o nome simbólico de Antero.
Coordenou a obra Prosódia Portuguesa : estudo prévio da ortografia e o Guia da cartilha maternal : prático e teórico.

Casou com Carmen Syder de Deus Ramos, de quem teve quatro filhos : Pedro de Deus Ramos (que morreu menor), Maria Guilhermina de Deus Ramos, Maria da Luz de Deus Ramos e Maria Joana de Deus Ramos.

No dia 2 de Abril de 1911 foi, então, inaugurado o Jardim-Escola e uma multidão assistiu a essa festa. João de Barros testemunhou : «Dia a dia, hora a hora, sem desfalecimentos, sem a menor hesitação (...) João de Deus Ramos foi erguendo a pouco a pouco, esse Jardim-Escola de Coimbra, o primeiro em Portugal».

Os traços fundamentais que caracterizavam o ensino nos Jardins-Escolas João de Deus são os que ainda hoje os sustêm : a intenção social (preocupação pelo desenvolvimento das classes mais desfavorecidas); o culto pelos valores nacionais; a expressão gráfico-pictórica e verbal. A filosofia pedagógica pretende desenvolver a ligação da criança ao meio. A aprendizagem tem que ser feita pelo raciocínio e não por aquisições de noções verbalizantes. O ensino da leitura inicia-se aos cinco anos.

Tendo como pano de fundo o ensino, publicou conjuntamente com João de Barros A reforma da instrução primária.
A Associação passou a chamar-se Associação de Escolas Móveis, Bibliotecas Ambulantes e Jardins-Escolas.

Em 1912 foi eleito Governador Civil da Guarda. O jornal A Pátria escreveu : «A causa da educação, que deve a João de Deus Ramos muitos e valiosos serviços, não perde todavia, o seu apostolado». Entre as suas deliberações atendeu à situação dos doentes e fez obras no manicómio da Guarda.

Em 1913 foi eleito Deputado por Lamego e Governador Civil de Coimbra. Nesse âmbito procurou regulamentar a emigração. Várias crianças que eram marginalizadas e misturadas com criminosos foram recolhidas no Refúgio, onde foram devidamente atendidas e resguardadas.
A partir deste ano passou a pertencer à loja Redenção da Maçonaria.

Deu-se nova alteração ao nome da Associação para Associação de Escola Móveis e Jardins-Escolas João de Deus.

Em 1914 inaugurou os Jardins-Escolas João de Deus em Alcobaça e na Figueira da Foz. «A educação tem o seu início, desde que os sentidos se apontam para o ver, ouvir e tocar o mundo.» e «A imaginação é nas crianças a sua faculdade predominante e até a fonte imanente de toda a espiritualidade humana» disse João de Deus Ramos. Publicou também Arte de contas.
Discutiu vários assuntos no parlamento, entre eles : a importância de uma escola de formação de professores, em Angra do Heroísmo ou em Ponta Delgada; Projecto de Lei para a criação de mais escolas, tendo em conta as necessidades dos alunos inscritos no ensino primário; A criação de Escolas Normais em Ponta Delgada; Reorganizar as Escolas Normais Primárias.
Um ano mais tarde foi eleito Deputado por Alcobaça. Começou a funcionar o Jardim-Escola João de Deus em Lisboa. Escreveu A reforma do ensino normal : o projecto de lei, discursos e pareceres. a lei de 7 de Julho de 1914.

Em 1917 inaugurou o Museu João de Deus – Bibliográfico, Pedagógico e Artístico, espaço onde pretendeu que se perpetuasse a memória do seu pai. Nessa mesma ocasião fez-se a inauguração solene do Jardim-Escola João de Deus em Lisboa. Deixou-nos como testemunho : «Deitem uma semente à terra numa charneca pedregosa; outra em boa terra, preparada e lavrada. As sementes de igual qualidade. No último caso, frutificarão, na charneca, poderão apenas nascer, plantas fracas e sem frutos.».

Em 1920 foi eleito Ministro da Instrução Pública, tendo participado em vários debates parlamentares. Afirmou : «Nunca fui político, na acepção vulgar do termo, porque antepus sempre o valor das ideias e dos princípios». Publicou ABC maternel : art de lecture : méthode João de Deus. Criou o curso de Didáctica Pré-Primária, ministrando aulas na sala do Museu João de Deus.
Em 1922 voltou para a loja Solidariedade da Maçonaria.

A Associação passou a ser designada por Associação de Jardins-Escolas João de Deus, designação essa que se mantém até aos dias de hoje.

Em 1924 como Maçon atingiu o grau 7º do Rito Francês. Publicou O Estado mestre-escola e a necessidade das escolas primárias superiores.

Em 1925 foi Ministro do Trabalho. Disse que : «A República precisa de justificar a revolução de 5 de Outubro, mostrando que esta se fez para enobrecimento da Humanidade (...)». Regulamentou o exercício das Farmácias e das Casas de Penhores e empreendeu uma campanha de protecção aos operários da indústria vidreira que estavam então em crise.

Em 1927 inaugurou o Jardim-Escola João de Deus em Alhadas e um ano mais tarde criou o Bairro Escolar do Estoril, fazendo parte da direcção pedagógica. «Numa vastíssima área de terreno arborizado, numa região como a dos Estoris (...). O corpo docente será escrupulosamente escolhido» pensou João Lopes Soares, um dos outros mentores deste projecto.
Empreendeu uma viagem ao Brasil com o objectivo de divulgar o método João de Deus, onde fez algumas conferências. Também aproveitou para dizer : «Fui ao Brasil estudar a diferenciação do espírito português e brasileiro e procurei ver o problema, através da escola e da poesia».

Em 1936 inaugurou os Jardins-Escolas João de Deus em Leiria e em Castelo Branco .
Preocupado com o ensino na sua totalidade, organizou a primeira Conferência Pedagógica, que se realizou em Lisboa, em 1938. Nela reuniu as directoras dos Jardins-Escolas e pessoas que se destacavam nas diferentes áreas do saber e assim, conjuntamente, discutiram o problema da educação pré-escolar. João de Deus Ramos disse : «É evidente que o abandono da criança, sob o ponto de vista cultural, antes de tal idade (7 anos), não é só uma lacuna que os Jardins-Escolas se propõem preencher, mas um grave erro a corrigir».
As conferências pedagógicas, que reuniam todas as directoras, passaram a realizar-se anualmente, com a finalidade de se fazer uma avaliação dos resultados do ensino nos Jardins-Escolas, para se saber se havia algo a melhorar, se havia sugestões a apresentar...
No ano seguinte publicou O analfabetismo nas Beira : comunicação apresentada ao VII Congresso Beirão e A criança em Portugal antes da escola primária.
Em 1941 escreveu Era uma vez um colégio...

Em 1943 inaugurou o Jardim-Escola João de Deus em Viseu. O curso de Didáctica Pré-Primária foi finalmente reconhecido pelo estado. No seu plano curricular incluía as seguintes disciplinas : Portugal na História da Educação, História da Educação, Pedologia e Higiene Escolar, Orgânica Escolar, Canto Coral / Educação Musical, Ginástica Rítmica, Leitura e Escrita (Método João de Deus – seus fundamentos fonéticos e pedagógicos / Iniciação à leitura – Cartilha Maternal), Desenvolvimento do Vocabulário e Exercícios de Linguagem, Psicologia, Educação Sensorial (Visual-Manual / Expressão Plástica), Iniciação à Aritmética / Iniciação à Matemática / Métodos Activos e Jogos. Dedicou-se ao fabulário infantil publicando Fábulas para gente moça, com ilustrações de Leal da Câmara. Ainda nesse ano publicou O Minho e os seus poetas.
Em 1947 escreveu O poeta do Bartolomeu Marinheiro.

Em 1948 inaugurou os Jardins-Escolas João de Deus em Mortágua e em Chaves. Concebeu conjuntamente com Jaime Lopes Dias O livro de capa verde : selecta infantil.
Em 1952 inaugurou o Jardim-Escola João de Deus no Porto que já estava em funcionamento desde 1951. O Jornal “O Primeiro de Janeiro” noticiou dizendo : «Ali, naquele magnífico jardim – que é igualmente uma escola – desenvolve-se-lhes o raciocínio, despertam-lhes as suas aptidões naturais».

Às 11:30 do dia 15 de Novembro de 1953, estava a trabalhar no Museu João de Deus, na mesa de trabalho de seu pai, quando faleceu. O seu corpo esteve em câmara ardente no Museu e depois foi colocado no jazigo da família no Cemitério dos Prazeres. O Diário Popular deu a notícia com as seguintes palavras : «Embora à custa de grandes sacrifícios e canseiras, realizou o seu sonho (...) defendendo com amor e com ternura, um ideal de pureza e de solidariedade humana – os Jardins-Escolas, onde as crianças a brincar, aprendem a ler».
Como edição póstuma foi publicado a obra Poetas, em 1955.